Quem acompanha de perto o universo garimpeiro na região de Serra Pelada no sudeste do Pará, sabe bem que não são poucos os interessados nas diversas áreas passiveis de exploração, divididas entre nove cooperativas, das quais a COOMIGASP – Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada é a que mais se destaca por sua quantidade de sócios, seu tempo de criação e suas áreas terem comprovadamente alto teor de minério.

E claro e notório também para quem já acompanhou negociações entre cooperativas e empresas privadas que a divisão dos lucros sempre leva em consideração o investimento, assim sendo as cooperativas sempre ficam com percentual menor vista a sua isenção de investir no negócio. Foi assim com Coomigasp/Colossus onde a parceria previu inicialmente 51% para empresa e 49% para cooperativa, o que teve que ser mudado devido o alto custo do projeto e em um aditivo no contrato o percentual passou a ser de 75% empresa e 25% cooperativa.

O modelo alterado adotado pela Colossus com a Coomigasp foi o mesmo entre COOMIC/Grifo (subsidiária da Colossus), onde a cooperativa teria 25% enquanto a empresa 75% dos lucros. Ambos os projetos não vingaram e tanto Colossus quanto Grifo abandonaram o “barco” diante dos vários conflitos motivados principalmente pela briga de grupos rivais interessados em comandar a entidade.

A Brasil Século III ou simplesmente BSIII “aloprou” um pouco mais no investimento prevendo um repasse à cooperativa 44% dos lucros e ficando com 56%. Note que em nenhuma das parecerias com lucros exorbitantes para a cooperativa o projeto vingou, mas em todos os casos essa proposta teria sido uma manobra para convencer os sócios das cooperativas, uma vez que os contratos necessitam de aprovação em Assembleia Geral.

No caso do contrato firmado no ultimo dia 27 entre MIYABRAS Mineração Yamoto do Brasil Ltda e COOMIGASP a divisão dos lucros é ainda mais desconexa, o acordo firmado prevê de 49% dos lucros à empresa e 51% à Cooperativa. Curiosamente o mesmo percentual inicial entre Colossus/Coomigasp, só que invertido.

A SABER – Estimativas apontam que haja 23 toneladas de minérios, incluindo ouro, estejam ‘perdidos’ nos rejeitos aos redores da mina de Serra Pelada. A parceria firmada no domingo dia 27 deste mês dará direitos à empresa de pesquisar e explorar os rejeitos da mina e levar 49% dos lucros do ouro e dos demais minérios a serem encontrados. A Cooperativa ficará com a maioria dos lucros, 51%. A MIYABRAS terá 6 meses de estudos e pesquisas na região para elaborar um relatório de estimativas e um projeto de exploração mineral em Serra Pelada.

A EMPRESA PARCEIRA – A empresa MIYABRAS (Mineração Yamoto do Brasil Ltda), que tem como sócios o empresário japonês Akio Miyake e a brasileira Vanuza Rosa dos Anjos, foi criada em 2004 com sede em Brasília (DF) e possui como atividade principal a extração de gemas (pedras preciosas e semipreciosas) e a lapidação de gemas (secundária). A empresa tem grande interesse na área da ”montoeira” e principalmente na exploração dos rejeitos da cava (o cascalho e a lama, conhecidos como ‘mechelete’) e já firmou contrato com a Prefeitura Municipal de Curionópolis (PMC) e obteve licenças ambientais para as atividades, restando apenas à aprovação do contrato de parceria com a Cooperativa.

MODELO DE PARCERIA – Durante dois anos acompanhei de perto a tentativa de negociação de uma cooperativa com empresas privadas e todos os grupos interessados repetiram a mesma coisa: “Não há como ser investidor único em um projeto sem que pelo menos 70% do lucro seja destinado a quem investe”. Durante todo esse caminho apenas um grupo ofertou mais que 30% para cooperativa, Shanghai Pengxin Group que ofereceu para oito das nove cooperativas 40% dos lucros, mas em troca fecharia totalmente o projeto isolando os cooperados de acompanhar o processo.

Apesar da proposta curiosa, os chineses conseguiram em 2011 assinar contrato com as seguintes cooperativas: COOPERSERRA (Cooperativa de Mineração, Desenvolvimento Social e Agromineral dos Garimpeiros de Serra), COOMPAG (Cooperativa Mista de Produtores, Agricultores e Garimpeiros de Curionópolis), COOMPRO (Cooperativa de Mineração e Agromineral dos Garimpeiros Proprietários de Catas de Serra Pelada) e COOMASE (Cooperativa Mista Agromineral do Rio Sereno), juntas, as quatro cooperativas representam 28.145 associados e detém uma área superior a 1.500 há.

Para o fechamento do contrato um grupo de executivos e um geólogo representando a Pengxing vieram até Serra Pelada, onde fizeram uma visita técnica nas áreas das cooperativas. A Shanghai Pengxin Group é um conglomerado de crescimento, com um escopo de negócios diversificado que abrange Desenvolvimento Imobiliário, Agribusiness Moderna, Indústria de Mineração e Construção de infraestrutura e investimento. Com sede em Xangai, o grupo tem agora mais de 40 subsidiárias em todo o mundo, seja subsidiária integral ou majoritariamente controlada. A partir de 2010, seus ativos totais atingiram mais de EUA $ 2 bilhões.

Na mineração o Grupo Pengxin adquiriu uma participação majoritária em um depósito de cobre na República Democrática do Congo em 2009, a produção está programada para começar agosto deste ano.

SERÁ QUE MUDA? A expectativa é que esse projeto dê certo. Logicamente a sociedade garimpeira está “escaldada” de tanto que já esperou e não viu resultado algum dessas cooperativas, com exceção da COOMIC que dividiu resultados de um pequeno projeto de ‘curimãs’ com os seus sócios, nos quais cada um recebeu 81 reais, nenhuma cooperativa já mais retornou algum valor aos sócios que a mais de 30 anos contribuem. Quem sabe dessa vez?