Produções selecionadas pelo Perifa.Doc, iniciativa com patrocínio master da Vale via Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, abordam as contradições da cidade e a ressignificação da identidade da periferia marabaense.
Entre as belezas, os conflitos, as memórias e os afetos que atravessam Marabá, no Sudeste do Pará, existem muitas cidades dentro de uma só. É a partir dessas diferentes formas de experimentar e perceber o território que surgem “Marabela” e “Cabelo Seco”, documentários produzidos pelos alunos do projeto Perifa.Doc – e que devem ir “ao ar” para toda a cidade no finalzinho de setembro.
Transformando questões sociais, culturais e territoriais do município em narrativas autorais, as produções partem da escuta de quem vive esses espaços para refletir sobre as histórias que são contadas sobre eles e, principalmente, sobre quem tem o direito de contá-las. Os documentários foram pensados, roteirizados e produzidos por jovens da periferia que integram o projeto Perifa.Doc.
Após o acesso a oficinas práticas, aulas teóricas, cineclubes e saídas de campo, os documentários começam a sair da ilha de edição para ganhar os telões das cidades. Revelando a visão das periferias de dentro para fora, o documentário “Marabela” é um dos exemplos quando se fala em ressignificar histórias dos 113 anos de Marabá e sua emancipação política.
Fruto do encontro com o poema de mesmo nome da professora Eliane Soares, a obra despertou na equipe o interesse pelas imagens distintas que convivem quando se fala no município, representadas simbolicamente pela passagem de “MaraBala” para “MaraBela”. Além de escolher uma dessas visões, o documentário pretende olhar para a cidade a partir da coexistência entre elas, revelando como experiências na periferia e de desigualdade dividem espaço com a riqueza cultural, as paisagens e os vínculos construídos pelos moradores.
“Esperamos que o público reflita sobre os desafios sociais presentes em Marabá, compreendendo que a dicotomia entre beleza e caos pode coexistir historicamente em um mesmo território, assim como em diversos lugares do país. Ao mesmo tempo, reflitam que as riquezas culturais permanecem vivas por meio da dança, da música, das paisagens, dos afetos e das formas de pertencimento construídas pelos moradores”, afirma o grupo, formado por Daniele Mousinho, Pedro Kauê Negreiros, Lucas Fernandes, Layanni Pompeu, Tayllon Fonteneles, Adrian Santos, Marcos Landin, Débora Melo, Marcos Riper, Carine Santos, Fernando Fernandes, Sarah Lima e Felismar Rodrigues.
Foi justamente a aproximação com essas pessoas que fez a própria equipe mudar a maneira de enxergar a história que queira contar. No início, a expectativa era encontrar personagens que se identificassem mais com a “MaraBala” ou com a “MaraBela”. No entanto, a escuta proporcionada pelo Perifa.Doc mostra que essa separação não era tão simples. As duas experiências apareciam, muitas vezes, na trajetória de uma mesma pessoa, tornando a narrativa muito mais complexa.
“Também esperamos que os termos Marabala e Marabela despertem uma reflexão linguística e pedagógica sobre o próprio território e as narrativas construídas acerca da cidade. Não queremos cristalizar a interpretação dos espectadores sobre Marabá. Por respeitarmos tanto as histórias marcadas por violências quanto aquelas atravessadas pelas belezas naturais e culturais, o documentário apresentará essas duas perspectivas, esperando que cada espectador construa sua própria percepção acerca da cidade”, conclui o grupo.
Essa mesma relação entre território e identidade aparece, por outro caminho, em “Cabelo Seco”. O ponto de partida é o próprio nome da comunidade, que carrega uma história marcada por estigmas e por um olhar atravessado pelo preconceito racial e pela desvalorização das mulheres negras. Ao se aproximar do território, entretanto, os realizadores encontraram uma realidade que contrasta com essa visão historicamente construída: mulheres que preservam memórias, fortalecem os vínculos comunitários e movimentam iniciativas culturais, como o coletivo Raízes do Cabelo Seco e o Dança Longevo.
É nesse contraste que o documentário encontra sua questão central. Se o nome “Cabelo Seco” foi atravessado por significados construídos ao longo do tempo, como ele passa a ser percebido quando a própria comunidade assume o direito de contar sua história? Para investigar essa pergunta, o filme coloca as mulheres no centro da narrativa e abre espaço para que elas compartilhem suas memórias, seus gestos e a maneira como se relacionam com o território. A proposta é acompanhar um processo de ressignificação que não é imposto pelo filme, mas já acontece dentro da própria comunidade.
“Esperamos que Cabelo Seco desperte um novo olhar sobre as histórias que carregamos e sobre o poder que as palavras têm de construir, mas também de transformar identidades. Para quem assistir ao documentário, desejamos que fique a reflexão de que toda comunidade tem o direito de contar sua própria história e de ressignificar as narrativas que lhe foram impostas. Para a comunidade, esperamos que o filme seja um gesto de reconhecimento, pertencimento e fortalecimento, reafirmando que sua memória, sua cultura e, principalmente, suas mulheres são as verdadeiras protagonistas dessa história. Se o documentário contribuir para que o nome Cabelo Seco passe a ser visto como um símbolo de identidade, potência e orgulho, teremos alcançado nosso principal objetivo”, destaca o grupo, formado por Bárbara Lopes, Vitória Monteiro, Madu, Grazi Azevedo, Gabriel Dias, Beatriz Rocha, Maria Eduarda, Alyne Pacheco e Aline Veríssimo.
Embora partam de questões diferentes, “Marabela” e “Cabelo Seco” se encontram justamente nesse movimento de olhar para Marabá a partir de dentro. É também nesse espaço que se insere a proposta do Perifa.Doc. Estimulando realizadores das periferias a transformar suas vivências a partir do audiovisual, o programa fortalece uma produção em que os territórios não aparecem apenas como cenário, mas como parte fundamental das histórias.
A proposta é que ambos os documentários, junto à outras produções, cheguem às cidades de Marabá e Belém, entre os dias 25 e 30 de setembro, em uma celebração especial ao audiovisual como elemento transformador das periferias.
Sobre a Vale
A Vale acredita que a cultura transforma vidas. Pelo quinto ano consecutivo é a maior apoiadora privada da Cultura no Brasil, patrocinando e fomentando projetos em parcerias que promovem conexões entre pessoas, iniciativas e territórios. Seu compromisso é contribuir com uma cultura cada vez mais acessível e plural, ao mesmo tempo em que atua para o fortalecimento da economia criativa.
O Perifa.Doc é realizado através da Lei Rouanet, e conta com Apoio do Instituto Rolé, da Tuntum Cultura, da Horus Planejamento e Gestão, Patrocínio da Vale, Co-Realização do estúdio UM.BA.RA.KÁ e realização da Pressa Filmes e do Ministério da Cultura.







